Quando o povo de um país não pode mais sonhar

Apesar da minha vontade louca de ir morar fora desde os 13 anos, eu acho o Brasil um lugar maravilhoso para se viver. Temos uma cultura rica, destinos maravilhosos para viagens de todo tipo e um povo acolhedor. É o que dizem: o melhor do Brasil é mesmo o brasileiro. Todo mundo sabe, a nossa galera não é só acolhedora, é bem-humorada, criativa e inteligente. Sabe bem como fazer limonada dos limões que a vida lhe dá, mesmo que sejam maçãs.

A despeito de toda a minha admiração, toda essa resiliência e criatividade do nosso povo, para mim, é bastante sintomática. Somos assim pela pura necessidade de adaptação às adversidades. Pra mim a conta é bem simples: se o brasileiro não sofresse tanto na vida e não estivesse tão acostumado a se lascar, não precisaria desenvolver habilidades extraterrestres para conseguir sobreviver. Muito simbólica para mim, foi a entrevista da Dona Francisca, que apareceu no programa Profissão Repórter do dia 17/03, sobre a pior cheia da história do Acre. A Dona Francisca perdeu tudo o que tinha e foi morar em um abrigo improvisado com uma porrada de outras famílias na mesma situação que a dela.

Veja bem, eu acho incrível que o brasileiros consigam encontrar graça na desgraça e ver coisas positivas no meio da tragédia. Mas não consigo deixar de pensar: que merda, cara. Não consigo deixar de achar que isso é produto do fato de que o nosso povo está muito acostumado a sofrer e a não ter respaldo nenhum dos governantes que elege. Historicamente, somos um povo habituado a ser maltratado e a ficar em silêncio. É comum. Tão comum que o Profissão Repórter entrevistou a Dona Francisca no dia do aniversário dela, quando ela foi ver o estado em que a casa dela havia ficado depois que a água baixou. E aí, o repórter perguntou qual eram os planos e desejos da Dona Francisca. Eu não sei você, mas eu sonho com muitas coisas. Sonho em viajar o mundo, em morar fora do Brasil, em ganhar na loteria. Sonho em construir uma família feliz. Mas a Dona Francisca não. Ela não sonha com o fim das enchentes na terra dela. Não sonha em ir morar em um lugar melhor, que tenha alguma estrutura. Ela não sonha em morar em um prédio que não sofra com alagamentos.  Ela sonha com uma canoa. Isso mesmo que você leu. 

A Dona Francisca queria comprar uma canoa.
A Dona Francisca queria comprar uma canoa.

A Dona Francisca sabe que outras enchentes virão. Tão certo quanto o céu ser azul, as enchentes já são uma certeza na vida dessa mulher sofrida. Ela sabe que não pode sonhar com o fim delas. Ela sabe que não pode sonhar que o poder público vá tomar uma atitude e investir em políticas públicas para reverter a situação calamitosa do povo que sofre ali. Dona Francisca está condenada e sabe disso. Então, consciente, o sonho dela é simplesmente poder ter dinheiro o bastante para comprar uma canoa e não sofrer tanto e nem perder tantos retalhos da sua vida na próxima enchente.

Quando o povo de um país não pode mais sonhar, meus amigos, é porque deu muita merda. E isso me deixa possessa. Todo mundo deveria poder sonhar com tempos melhores. Eu tenho muitos sonhos individualistas. Mas também sonho com o dia que os altos impostos que eu pago serão revertidos para alguma melhoria na vida de tantas Donas Franciscas que existem Brasil a fora. E sonho com o dia em que todas elas poderão sonhar com tempos melhores. Mas mais ainda: com o dia em que todas poderão efetivamente viver esse sonho. Eu me chamo Diandra, mas eu poderia me chamar Francisca.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *