Por que eu acho que os brasileiros não sabem torcer

Hoje eu fui ver um jogo de futebol. Quem me conhece sabe que há alguns anos isso não era nenhuma novidade na minha vida. Eu até tinha um blog em um site sobre futebol. Minha presença em estádios era constante. Até o dia em que eu e o meu namorado precisamos sair fugidos do estádio do Pacaembu, em São Paulo. Quem pensa que fugimos da torcida rival – da Portuguesa – está enganado. Fugimos de ameaças de torcedores do nosso próprio time, o Santos. Desde esse dia, diante da perspectiva de perder minha vida ou a de alguém que eu ame por uma razão tão fútil, parei de frequentar estádios. Simples assim. Não foi difícil ou sofrido; uma surpresa, dada a minha profunda ligação com o esporte e o time. O choque de perceber como essa possibilidade era real me atingiu fundo e, rapidamente, minha obsessão pelo esporte foi se calando dentro de mim. Daí em diante, esse hábito foi extirpado do meu dia a dia. E cheguei ao ponto de sequer saber quem estava sentado no banco de reservas do meu time, um pecado imperdoável.

Mas, voltando: hoje eu fui ver um jogo de futebol. Foi a segunda vez no último mês. Antes de hoje, eu havia ido assistir a um pouco expressivo XV de Piracicaba x São Bernardo. Veja bem, eu moro a minutos de um estádio municipal. Eu consegui ingressos. E pensei em como poderia ser diferente ir a um jogo desses, de times que possuem torcidas menores. E foi. E foi divertido, foi quase interiorano, foi leve e o ambiente era familiar.

Hoje o jogo também era do São Bernardo. Mas o adversário era outro, o meu velho e querido Santos. Nossos ingressos eram para o lado da torcida do São Bernardo e não conseguimos trocar. “Que mal poderá haver?”, pensei. As camisas alvinegras ficaram no carro, pois não nos deixaram entrar fora do setor visitante com elas. Camuflados, nos sentamos no meio da torcida São Bernardense. Em pouco tempo, ficou evidente que éramos parte dos poucos que preferiram ficar incógnitos e que a quantidade de outros torcedores do Peixe em meio aos da torcida do Tigre era bem maior do que imaginávamos.

E em pouco tempo também, logo depois de torcedores do São Bernardo começarem a discutir com santistas que estavam no setor mandante, ficou claro que o tempo pode passar, mas o brasileiro está anos luz atrás do que a gente entende por civilidade e respeito. E ainda mais longe de entender efetivamente o significado de “espírito esportivo”. No episódio citado no começo do texto, em que membros da própria torcida do Santos ameaçaram a minha vida e a do meu namorado, eu percebi isso da pior forma possível. Mas, em novembro, tive a chance de entender o quão enorme é a distância que nos separa da compreensão do que verdadeiramente significa o conceito de esporte.

Tive a chance de assistir a um jogo da NFL, em Nova York: NY Giants x San Francisco 49ers. E eu não posso sequer começar a explicar para vocês a minha cara, a minha reação estupefata quando, desde a rodoviária, via por todos os lados torcedores de ambos os times, devidamente uniformizados, em um mesmo espaço, convivendo pacificamente, dividindo o mesmo ônibus em direção ao estádio e se ajudando com dicas sobre o local.

Nada do que eu vivi nos meus 26 anos me preparou para o que encontrei naquele dia 16 de novembro de 2014, ao finalmente chegar ao MetLife Stadium. Milhares de torcedores das duas equipes (mais de 80 mil) tomavam conta do enorme estacionamento ao lado de fora do estádio. Não, não havia polícia escoltando ninguém. Sequer havia um local separado para os carros dos torcedores do time da Califórnia. Mais do que isso: os adversários faziam churrasco juntos, jogavam bola (oval) lado a lado, confraternizavam e SE DIVERTIAM. Ali, eles não eram inimigos, não precisavam guerrear ou se odiar. Eles eram apenas pessoas, curtindo um domingo com seus amigos, sua família e seus filhos. Livres, sem qualquer tipo de medo ou receio, sem a preocupação de esconder suas jerseys na mochila ou no carro, como fiz hoje. Ao contrário de medo, o sentimento que se notava era o de orgulho em vestir as cores do time do coração. Enquanto passávamos com nossas roupas do San Francisco 49ers, fomos exaltados, acolhidos e até literalmente abraçados. Torcedores dos dois lados nos cumprimentavam com high fives, gritavam o nome do time ou até mesmo desejavam boa sorte! O cenário se repetiu do lado de dentro do estádio. Torcidas em setores separados? Não, meu amigo. Acho até que se falasse nisso com um daqueles caras dali, receberia um olhar esquisito, como se eu fosse louca.

E talvez eu seja mesmo. Talvez todos nós sejamos. Se pararmos de ir na inércia do grupo e pensarmos conscientemente, veremos que malucos somos nós, que achamos essas guerras entre torcidas coisas normais e as encaramos de forma corriqueira. Todos nós, que nos juntamos dentro do estádio para ofender e agredir seres humanos apenas porque eles torcem por um time diferente do nosso. Somos completamente malucos, pois acreditamos que as pessoas usando cores diferentes das nossas são pessoas piores do que nós mesmos, cujas vidas nada valem. Somos animais que precisam de cercadinhos, policiais, cassetetes e locais delimitados apenas para impedir uma carnificina, precisamos de esquemas especiais para nos deslocar pela cidade, caso contrário, teremos briga, guerra e morte no noticiário do dia seguinte. Destacamos centenas de policiais que poderiam estar se ocupando de coisas muito mais importantes pela cidade, prendendo bandidos de verdade, protegendo nossas mães que ficam em casa e impedindo crimes, apenas para manter a ordem e impedir que uma batalha ecluda. Nós, que clamamos ser um povo pacífico, não conseguimos nos comportar e viver em sociedade, não entendemos que somos todos iguais. Quando se trata de torcer, o cérebro do brasileiro fica burro, ficamos cegos e cedemos aos nossos instintos mais primitivos. Animalescos.

Medimos o valor de seres humanos pela camisa que vestem, sem nada sabermos sobre eles. “Ah, os brasileiros amam o esporte”, bradam os apresentadores de TV. Mentira. O brasileiro não sabe nada sobre o esporte. Usamos a paixão como desculpa e muleta para não assumir o quão atrasados realmente somos. Somos tremendamente hipócritas e ignorantes que pensam que estão acima do resto do mundo. E somos hipócritas furiosos. E, com essa fúria, nos cegamos para o que realmente importa e para as lições que só o esporte pode nos proporcionar: o espetáculo, a diversão, o espírito de equipe, a importância do coletivo, a força que temos quando nos unimos. E não falo apenas da união dentro de campo, mas também fora dele. Foi ali, no coração de uma multidão de cidadãos de um dos países que mais faz guerra no mundo, no meio daqueles milhares de pessoas de vermelho e de azul – adversários e não inimigos -, grande parte deles bebendo litros e mais litros de cerveja sem permitir que o álcool justificasse barbáries, que eu entendi do que tudo isso se trata. E pude ter consciência do quão distante disso tudo nós estamos.

No ônibus, a caminho do estádio, escutando impressionados o torcedor do Giants dar dicas sobre bons lugares para comer no MetLife Stadium.

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